sábado, 26 de janeiro de 2019

"Pinguins em Praga?" - Foto de Jean-Charles Forgeronne

Estão ali na margem esquerda do MOLDAVA, à beira da icónica PONTE CARLOS, são 34, todos numa marcha alinhada, rumando para um sul incerto, talvez para um paraíso perdido... Feitos em plástico reciclado, de um amarelo vivo para chamar decerto a atenção, os pinguins de Praga é uma obra dos "The Cracking Art Group", um grupo de seis artistas internacionais que assumiram a missão chamar a atenção para os perigos das alterações climáticas... E que bem que o fazem, com inteligência e bom gosto...


João Palmilha
(Viajante de Valmedo)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019



A MISTERIOSA ORIGEM DAS PALAVRAS - I


DEFENESTRAÇÃO


Polissílaba palavra esta, DEFENESTRAÇÃO, que mistura em si mesma a amálgama histórica e a riqueza da sina europeia maturada ao longo de séculos... Fenestra, em latim, Fenêtre, em francês, Fenster, em alemão, são vocábulos que se conjugam com o siginificado de JANELA, em português...  Os lusitanos, sempre espiritualmente virados para a simplicidade, não viram mais do que pequenas portas nas janelas, e se à porta se chamava latínicamente Janua, a uma janela, àquela pequena porta sem pé, só se poderia chamar  Januella... O correcto, seria em bom português, chamar à defenestração DEJANELIZAÇÃO, isto é, lançar algo fora pela janela...!


Das janelas da Câmara Municipal de Praga alguém foi lançado....

Defenestração - acto ou efeito de defenestrar, de atirar janela fora algo ou alguém, mas convém referir que o alguém só lhe é  associado após os incidentes de PRAGA de 1419 em que, numa rebelião de HUSSITAS (seguidores de Jan Huss, protestante dos dogmas de Roma e incinerado na fogueira por heresia em 1415), diversos vereadores católicos são por eles lançados pelas janelas da Câmara Municipal...

Segunda defenestração de Praga
Curiosamente, 200 anos depois (!),  em 1618, uma revolução desencadeada na Boémia descambou numa enorme crise quando vários representantes dos Habsburgo foram arremessados das janelas mais altas do Castelo de Praga, incidente que estaria na origem da Guerra dos Trinta Anos, a qual se alastraria a toda o continente europeu e que, só na Boémia, dizimaria um quarto da população...
Estes incidentes trouxeram para o léxico político a importante noção de que, ser defenestrado, é ser imolado, não volta a ser nada após ser lançado da janela, seja por incompetência,  seja por corruptibilidade, seja apenas porque sim... Foi-se! E que bom seria que, baseados nesta lexicografia, desatasse o povo a fazer justiça e a lançar pelas janelas (e no nosso parlamento não faltariam!) aqueles políticos e outros infiltrados agentes económicos que teimam em parasitar a nossa sociedade e a levar à ruína os cofres públicos e outros ainda, que, por interesse ou por inaptidão, teimam em ser uma nulidade e um  obstáculo ao progresso da democracia!?... Dejanelizemos então, até à exaustão!...


Câmara Velha de Praga

João Portugal
(Linguísta de Valmedo)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

"O grito do refém do mundo de cá"

Jean-Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019



QUANDO AS BOAS IDEIAS SALTAM PELA JANELA....



JANELA, diz-se que é uma abertura ou vão na parede externa de um edifício ou de um veículo que se destina a proporcionar iluminação e ventilação ao seu interior ao mesmo tempo que permite a visibilidade da paisagem exterior... (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)... A JANELA DO TEMPO contém, em si mesma, essa dupla faculdade, não só a capacidade de reavivar memórias frágeis que corriam o risco de se tornarem pó num qualquer carunchoso baú de sotão mas também a ousadia de permitir, num salto em frente rumo àquele azulado horizonte para além da Berlengas, qual errante voo de gaivota, a perpetuação da história, da sabedoria e da vida de uma comunidade pelas gerações vindouras...
Por isso, amigo leitor, abra a sua janela e mergulhe nas profundezas do mundo cão, para os tempos primordiais e para as eras futuras, para as memórias e para os sonhos...



Bendita a ideia de abrir esta janela e assim permitir a vinda para o nosso mundo de memórias resgatadas a uma morte certa numa qualquer gaveta esquecida...  Porque, fique sabendo o amigo leitor, se um dia destes se achar passeando pelas ruas da Zambujeira e Serra do Calvo, duas aldeias que se foram juntando até se tornarem numa só e que se não fossem as placas a meio da Rua da Liberdade a assinalar o fim de uma e o príncipio da outra ninguém notaria, talvez só ainda lá estejam por questão histórica, pode talvez ficar surpreendido pelas janelas que vai encontrar... São janelas mágicas que o vão transportar a outros tempos...



As Janelas do Tempo são quadros feitos a partir de fotografias originais e implantados no exacto local onde as mesmas foram tiradas há décadas, permitindo assimilar a transformação das aldeias ao longo do tempo ao mesmo tempo que exibe o rico património urbanístico e cultural, sejam os moinhos, as fontes, os lavadouros, a igreja, as ruas, o povo...

E as memórias são transversais, amigo leitor, não se restringem à zona da Lourinhã, comigo, por exemplo, qual espelho, mostram-me a esquecida  realidade de um Ribatejo profundo dos anos sessenta em que os primeiros automóveis iam chegando a uma aldeia de ruas lamacentas à espera de alcatrão e luz eléctrica... A Janela do Tempo tem esse condão, faz-nos viajar não só pelo tempo como pelo espaço, porque no mundo de então as aldeias eram iguais...

E depois, fotografias com quase um século mostram-nos como eram, por exemplo, os trajes de festa, aquela roupa que só se tirava do baú para as ocasiões festivas... Aqui me penitencio, amigo leitor, pela emoção com que observo estes instântaneos históricos, é que, veja bem, ainda sou do tempo em que existia o traje de domingo e o os outros....
E mesmo que tudo isto à primeira vista pareça estranho, mesmo que não seja a nossa realidade, nem a dos nossos pais, porventura, terá sido, seguramente, a dos nossos avós... E que pobres seremos se encararmos o futuro sem as nossas heranças culturais, que tristes seremos se não abrirmos a janela de trás, que dá para o passado, e a janela da frente, que convém escancarar, de olhos postos no futuro, com orgulho do que já passou!...

Este projecto das "Janelas do Tempo" convida-o a viajar no tempo e no sentimento, é um museu ao ar livre e um portal que o transporta a outro tempo, é uma ideia genial que saltou pela janela da imaginação e que devia ser replicada por tantas outras terras, tantas outras histórias, tantas outras vidas, tantos outros futuros...




A Janela do Tempo número 15, por exemplo, datada de 1933, ano da inauguração da Fonte da Serra, abastecedora de água à população desde tempos imemoriais, ali nas profundezas do vale que separa a Serra do Calvo da Abelheira, encerra uma maravilhosa lenda: ali mesmo, há séculos atrás, uma menina terá ido à fonte buscar água e aí encontrou uma Velhinha Moura que lhe terá perguntado:
   - Mas porque vens tão cedo buscar água, menina?
   - A minha mãe vai cozer pão e precisa de água!
     - Oh! Há tanto tempo que não como um pãozinho quente! - e a velhinha tirou do seu avental um besouro brilhante e deu-o à menina, dizendo:"Leva isto à tua mãe e diz-lhe para me trazer um pãozinho"...
Mas a menina assustou-se ao pegar no brilhante besouro e largou-o, desatando a correr para casa... Ouvindo a história, a mãe da menina apercebeu-se de que aquilo era uma benção, o besouro seria uma jóia em ouro que transformaria as suas vidas para sempre e desatou a correr até à fonte mas nem sinal da moura ou do besouro... Mas essa não seria a única desgraça a ocorrer na fonte: consta que uma das personagens mais queridas e carismáticas da aldeia de então, o Carlotes, com um copito a mais, se terá desequilibrado e morrido afogado ali mesmo...



João Alembradura
(Historiador de Valmedo)

sábado, 19 de janeiro de 2019

"A ponte de Zambujeira-do -Mar no século XIX" - Lavadouros da Zambujeira, Lourinhã


João Plástico
(Artista de Valmedo)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019



OS MÁRTIRES, OS SANTOS E OS PECADORES... 


São mais os santos do que as mães e todos juntos são uma ninharia comparando com os milhares de mártires torturados e mortos pela SANTA INQUISIÇÃO, infinitamente menos até do que as carradas de crianças inocentes abusadas psicológica e sexualmente ao longo dos séculos, sob a capa de uma terrível santidade... E embora não sendo porventura pecado maior a dedução de que provavelmente sempre tenha havido mais pecadores dentro da maculada Igreja do que fora dela, alguns santos merecem um pouco mais de simpatia do que os restantes e de entre eles destaca-se SÃO SEBASTIÃO...


"Martírio de São Sebastião" - Gregório Lopes - séc.XVI - MNAA


É apanágio dos santos, à excepção dos da casa, a produção industrial de milagres, embora o Papa, num processo de canonização, tenha a prerrogativa de poder dispensar as obras milagrosas em casos excepcionais de martírio, após cuidada comprovação histórica; portanto, pode-se chegar a santo pela via milagreira ou então pela do martírio, mas São Sebastião foi muito mais além, foi um mártir milagreiro!  Nascido em França, Sebastião viveu desde novo em Itália na segunda metade do século III e, embora cristão, fez brilhante carreira militar como soldado e depois capitão da guarda do Imperador romano Maximiano. Consta no entanto que, para além de executar as suas tarefas castrenses com distinção, Sebastião, em segredo e nas horas vagas, prestava assistência aos cristãos presos e ajudava doentes e outros necessitados, curando cegos e surdos pelo caminho. Tudo correu bem até ao dia que o nosso herói foi denunciado ao Imperador, o qual ignorava ser um dos seus capitães de confiança cristão e sentindo-se traído, decretou-lhe um castigo público e exemplar que desencorajasse semelhantes afrontas:  




Capela de São Sebastião - Lourinhã


A Casa dos Petiscos
Sebastião foi amarrado a um poste, apenas de tanga vestido e contra ele os seus bem conhecidos arqueiros da guarda imperial dispararam as suas flechas, deixando-o ali exposto e a sangrar até morrer! Mas, verdadeiro milagre, a morte não foi certa como parecia e socorrido e tratado por gente amiga, o santo haveria de recuperar em segredo e de tal forma o fez que se agigantou nele a vontade de pregar a sua nova, ganhou redobrada coragem e apesar de ninguém ter visto, presenciado ou escrito sobre a ocorrência, parece que o nosso intrépido mas ingénuo paladino, talvez com fé de que o  Imperador lhe caísse de joelhos assustado perante a sua visão, qual ressuscitado dos mortos como o mestre profeta o havia feito duzentos anos antes, voltou Sebastião a enfrentar o tirano, interpelando-o pelas injustiças que eram levadas a cabo contra os cristãos... Mas como não há milagres todos os dias, o Imperador, desta vez, mandou que Sebastião fosse espancado até à morte e que o seu cadáver fosse lançado nos esgotos de Roma para que não pudesse ser encontrado e venerado... Assim foi feito, mas entretanto o seu corpo seria resgatado do anonimato e sepultado nas catacumbas para, quatro séculos mais tarde, ser trasladado para uma basílica mandada construir pelo Imperador Constantino, o convertido, e ainda hoje o santo é representado como um jovem mártir (tinha 32 anos quando morreu) trespassado por flechas...


E no mundo de hoje, em que abundam martírios, onde já não acontecem milagres (porque será?) e santos nem vê-los, restam-nos as festividades que se vão fazendo em honra dos antigos milagreiros... As de São Sebastião abundam por cá e pelo Brasil, por exemplo, e de entre todas salienta-se, pelo seu carácter humilde e popular e ambiente único, a que ocorre por estes dias na LOURINHà(o santo celebra-se a 20 de Janeiro)... Pela tardinha, quando os foguetes estalam no ar, o povo já sabe, os bolos de festa estão à espera e todos rumam ao largo fronteiro à pequenina Capela de São Sebastião para, entre dois copos de três de branco ou tinto que ajudam a empurrar a ferradura, meter a conversa em dia ao balcão da casa dos mordomos... Há quem fique para mais tarde e petisque qualquer coisa e haverá também sempre alguém que não arrede pé porque alguém saudoso está sempre chegando e o milagre da alegria se repete! Não há frio ou chuva que desmobilize e para os mais tradicionalistas ainda restam a procissão de domingo e o leilão dos cargos em plena rua...


Celebremos, pois, em honra do mártir e santo Sebastião, e que possa ele interceder sempre, lá do alto, pelos homens de boa vontade que erram cá por baixo!.....



João das Boas Regras
(Sociólogo de Valmedo)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

"Ponte romana" - Vale da Cornaga, Reguengo Grande

Jean Charles Forgeronne
(Fotógrafo de Valmedo)